quarta-feira, 15 de abril de 2009

Desabafo


Dão-nos um lírio e um canivete

E uma alma para ir à escola

Mais um letreiro que promete

Raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário

Que tem a forma de uma cidade

Mais um relógio e um calendário

Onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim

Para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos um prémio de ser assim

Sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu

Para tirarmos o retrato

Dão-nos bilhetes para o céuLevado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos

Com as cabeleiras das avós

Para jamais nos parecermos

Connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história

Da nossa historia sem enredo

E não nos soa na memória

Outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados

Que adormecemos no seu ombro

Somos vazios despovoados

De personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho

E um pacote de tabacoDão-nos um pente e um espelho

Pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça

E uma cabeça presa à cintura

Para que o corpo não pareça

A forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro

Com embutidos de diamante

Para organizar já o enterro

Do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal

Um avião e um violino

Mas não nos dão o animal

Que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão

Com carimbo no passaporte

Por isso a nossa dimensão

Não é a vida, nem é a morte

Natália Correia

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